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Ensaio sobre o amor

Muito já foi dito sobre o amor, e todas as possibilidades de amar. Não vejo muito o que acrescentar quando se fala de amor em seu sentido mais poético. O amor pode ser uma armadilha biológica como nos faz crer Shopenhauer, ou algo mais sublime e despretensioso como o amor ao próximo pregado por Jesus, ou ainda o amor catastrófico e heróico Hollywoodiano de Titanic, ou quem sabe o amor neurótico e racional de Woody Allen. O fato é que o amor se tornou uma commoditie, um bem, algo palpável, concreto, negociável. Todos têm uma fórmula que supostamente nos encaminharia ao amor perfeito, ao amor feliz, ao sublime, ao elevado nível de amar. Esse amor não me interessa. Me interessa um tipo de amor que não se expõe a esse tipo de definição. O amor que “não ousa dizer seu nome”, como na poesia escrita pelo amante de Oscar Wilde, é o que me interessa. Esse amor vai contra as leis de Darwin de evolução da espécie, contra a teoria de Shopenhauer do impulso vital da perpetuação. Desse amor que por séculos foi exaltado e reverenciado por filósofos gregos para em seguida ser excomungado pela religião. É esse amor que me faz escrever essas palavras num ímpeto de entender o que nos move, de entender o que me faz optar por um pênis e não uma vagina. Por que vou contra o que todos assumem ser a natureza?

Meu instinto biológico de procriação, embora inconsciente, parou de funcionar? Pâne no sistema? Pode ser. Mas prefiro acreditar que estão a pleno vapor. Isso eu digo pelo simples fato de que eu continuo buscando nos meus parceiros homens as mesmas características que busquei quando me casei com minha ex-mulher e cumpri meu papel na cadeia reprodutora. Como dizem que buscamos parceiros que possam juntar seus genes aos nossos para aprimorarmos os descendentes, eu buscava em meus parceiros femininos, genes de olhos claros. Não percebia esse padrão, mas sempre achei mais atraente olhos claros. Essa era uma forma de enriquecer meus genes, portanto, hoje tenho um filho de olhos azuis. Levando isso em conta, percebo que esse padrão não cessou com minha “opção” por parceiros masculinos. Continuo me interessando por homens de olhos claros. Se o amor fosse apenas um desejo inconsciente de perpetuar a espécie, como afirma Shopenhauer, por que ainda escolho homens de olhos azuis? Obviamente, até meu inconsciente sabe que não haverá perpetuação da espécie! Então por que?
Acho que o amor não é um truque da natureza pra mantermos nossa meta evolucionista. O objetivo não é um ser que virá através da reprodução física. E sim um ser duplo. O instinto está mais para o da sobrevivência individual do que a reprodução. Quem será o parceiro ideal que irá me proporcionar uma viajem mais agradável para que minha sobrevivência, nesse pequeno espaço de tempo cósmico que estou passando aqui na terra, seja a mais intensa possível? Quem irá preencher minhas insuficiências com qualidades opostas às minhas? Racionalmente sabemos nossas deficiências e procuramos parceiros com habilidades que não possuímos. Mas por que os gays fazem isso se não haverá um produto desse amor a ser gerado por 9 meses? Por admiração!

Quando gostamos de iguais, inevitavelmente nos colocamos diante de um espelho. Um espelho onde nossas falhas estrondosamente gritam por atenção. Nos vemos no outro, muito mais do que se esse sexo fosse o oposto. Nos conhecemos mais, nossos pontos fracos e nossas áreas erógenas são facilmente exploradas pelo outro. Sabemos as reações biológicas de cada ponto do nosso corpo. Esse espelho é cruel demais. Não dá pra ter meio termo. Meio saber. A verdade é nua e crua. Os gostos se equiparam, se equivalem de tal forma que um se reconhece no outro, ou se estranha imediatamente. O que além de uma cruz, pode ser uma dádiva. Saber mais do outro e das reações do outro é algo corriqueiro e de suma simplicidade para um gay. Então volto onde eu queria chegar. O que nos faz amar alguém do mesmo sexo? Não é, definitivamente, embora acredite que haja alguma força nisso, o instinto biológico de reprodução. O que resta é a admiração. A vontade de ser o que o outro é. Se o outro tem a barriga mais dividida que a minha, isso me atrai. Porque? Volto ao instinto de melhorar a espécie. Ele tem menos barriga que eu, o olho é claro, etc. Mas não acho que isso explique o que ocorre hoje em dia, talvez em 1800, sim. Parto do principio que somos atraídos pelo que julgamos ser melhor no outro e pior em nós. Logo, amor é admiração profunda por alguém.

Uma admiração que nos leva a acreditar que junto com essa pessoa, estaremos mais equipados para enfrentar o mundo contemporâneo e suas armadilhas estéticas perfeitas e indestrutíveis. Para não sermos massacrados pelo sistema de consumo em massa de uma estética de beleza e padrão de status, nos vemos às vezes admirando pessoas por sua classe social. Isso é uma distorção do que é admirar alguém. Uma pessoa jamais será o que ela tem. Aliás, é muito provável que a sua posição social a torne arrogante, prepotente e julgadora de valores já estragados e apodrecidos. Somente pessoas sem auto-estima, e com nenhum valor humano, se vêem atraídas por riqueza. Para isso tanto faz ser gay ou hetero. A admiração ao termo “Bem –Sucedido” tem que ser abolida imediatamente e substituída pelo termo “Bem –Resolvido”. E bem-resolvido será aquele que melhor entender suas idéias, sua origem, seu papel no universo, seu desprendimento dos valores errôneos da sociedade. Esses serão sempre dignos de admiração. É através dessa admiração que um novo ser surgirá dessa união, o ser chamado casal.
Quando o casal se torna um ser vivo e independente, o amor estaria pleno. Essa busca que talvez seja impossível, é o que nos move. Não importa a opção sexual. No plano racional queremos isso, mas não seria exatamente isso a maior ilusão desde a invenção da palavra amor? Não é justamente nessa hora que a privacidade do outro e seu próprio senso de individuo é destruído ao ponto do parceiro não se interessar mais? A falta de individualidade não é a principal fonte de desprezo que se pode sentir por um ser humano? Portanto fica inviável o amor, pelo menos o amor da outra metade. O amor do ser um só. O amor da unidade. O amor sustentável é o amor “duplo” onde um não abre mão do que é, das suas crenças, dos seus interesses, dos seus defeitos e de sua dor, e o outro não o força a nada, eles juntam suas qualidades e deficiências para sobreviver ao mundo, aos outros, à inveja alheia, ao clima, à vida. Essa parceria é viável, é saudável, é concreta, pode ser conquistada. Mas é mais fácil ganhar na loteria. O cotidiano está sempre ali esperando pra abocanhar esse amor. Seja no cagar de porta aberta ou pendurar a calcinha no chuveiro, ou nas perversões sexuais do parceiro, que como um “Jean Genet” podem levar o outro a se sentir um objeto na mão do seu amante.

Até que ponto o amor é perverso? Até que ponto sexo e amor são compatíveis? Ou até mesmo coexistentes. Quando faço amor e quando é sexo? Linhas tênues que podem ser imperceptíveis ou ter um verdadeiro abismo entre elas. Quando gozo na boca de meu parceiro, isso seria amor? E a procriação? Será que isso o ofende? Será que o estou subjugando a um desejo de dominação de minha parte? Isso também é amor? Temos que urgentemente reformular nossa definição de amor. Com amor vem inevitavelmente o sexo! Com ou sem intenções de procriar. Será o amor algo que convive com as fantasias sexuais? Tem que ser! Senão não existe amor! Ninguém, pelo menos que se preze, ou que me interessa relatar aqui, faz só amor na cama. Não têm quem tenha seu pau chupado (falo de pau com a maior naturalidade, como fazia o filosofo Montagne em 1500, pois faz parte do que eu sou, e como ele mesmo frisava: “nos iguala aos animais”, isso sem querer nos diminuir, pelo contrario) que não pense algo do tipo: “Chupa, vai, sua cadela ( ou viado), quero gozar tudo em você!”.

Onde se encaixa o amor nos padrões pré-estabelecidos do termo? Não se encaixa! Isso gera uma frustração e uma culpa totalmente desnecessárias. Olha o exemplo do pobre Clinton que desencadeou uma tentativa de Impeachment. Uma sociedade inteira, que se diz a mais civilizada do mundo, quis a cabeça do seu presidente por causa de uma mamada extraconjugal, invadindo a privacidade de um ser humano e o julgando em rede mundial. É PATÉTICO! O ponto que chegamos em relação a sexo é deplorável. Vêm dessa culpa, dessa noção de amor fiel, monogâmico, em que o corpo e a matéria são mais importantes que o sentimento. Isso é uma deturpação total do amor. Fidelidade sexual não tem nada a ver com amor. Pode ser relacionada ao medo apenas. E se existe medo não existe amor verdadeiro. Amor talvez também não exista, como eu posso não existir, nem o Universo, mas supondo que isso tudo exista, tenho certeza que não depende do corpo e sim da mente. Amor é um fenômeno mental. Faça as sacanagens que seu parceiro necessita para chegar ao orgasmo e não confunda as coisas. Seu limite será o que você consegue fazer e continuar admirando seu parceiro. E seja feliz. Ou não, se isso não te importar, porque já disseram antes: “Felicidade é pra gente burra”.

Boa sorte!

Por Mau Couti
www.papaigay.blogspot.com


Amigos ou cobras?

Para direita. Cobras. Esquerda. Idem. Sigo em frente. Ops! Cobras! Que coisa... Venenos. Críticas. Inveja. Despeito. Ódio. Um mar de energia ruim irradia em minha direção. Será só comigo? Onde estão os amigos, as boas companhias, meus camaradas? Nos perdemos nesse esquema fast-friends frenético do mundo atual. Melhores amigos de hoje, daqueles de contar intimidade, de jurar amor eterno, de confiar plenamente, de sofrer a dois, são os que amanhã estarão lentamente nos secando, nos tirando o que temos de melhor, nos sugando a essência. Estou fraco, quero a amizade infantil de jogar queimado nas ruas da zona norte. Nas noites passivas que só um garoto de 8 anos enxerga. Tudo é novo, tudo é claro, tudo é possível. Juras de amor eterno são eternas. Um ano é uma eternidade nessa idade. Lembra das férias da infância? Posso jurar até hoje que duravam um ano inteirinho. E os 18 que nunca chegavam, você fazia 20 mas não fazia 18 de jeito nenhum. E quando fez, ele durou 3 anos. Tenho certeza! 2000 foi ontem. Estou errado? 8 anos passam agora com se fossem 1! E é assim que as amizades estão se comportando. São instantes de uma vida que parece mais uma Polaroid antiga e enferrujada. Nascem instantaneamente, do nada, de um momento de felicidade, de um encontro de almas, você os percebe e se abre, como se fosse ainda aquela criança da zona norte, você acredita no momento, “carpe diem”, mas como as fotos, desbotam e somem com o tempo. E o que resta? O balaio de cobras. Os que já não eram amigos ficam eternamente a te lembrar que você não tem amigos. Nem precisam falar. Você os olha e lá está: -“Seu merda, você vai se fuder na vida. Eu que vou conseguir”. A mordida dói. A cobra era venenosa.

E nem pense em tentar expor sua felicidade. Esse é o maior erro. Não exalte suas conquistas. Não fale NADA! Vou te contar um segredo. A sua felicidade é SUA! Guarde a sete chaves, como se fosse um tesouro. Isso se sua felicidade for realmente felicidade. Existem milhões de falsas felicidades. Um carro, uma casa, uma roupa... Você pode ser vítima de uma delas sem saber, facilmente. Eu não, eu quero uma felicidade Epicurista. Que como Amélia: Epicurio que era feliz de verdade. Mas como ser feliz sem os verdadeiros amigos? Para ele, um dos pré-requisitos para a felicidade era justamente se rodear de amigos. Amigos. Eita palavrinha pequena e enorme ao mesmo tempo. Quando um conhecido vira amigo? Por que? E pra que? Para Oscar Wilde o tempo se encarregava disso, e pra mim também, pois ele tem uma frase ótima para essa ocasião, aliás, tem frases ótimas pra tudo. Quem não o conhece corra a uma livraria imediatamente. Bom, ele dizia que : “A amizade é muito mais trágica que o amor, dura mais.” Isso talvez lá em 1800, pois na era do fast-friends, nem um nem o outro duram. Mas como distinguir os que torcem por mim de verdade? E será que essa torcida deseja pra mim o que eu também desejo? De nada me adianta alguém querer me ver engravatado num emprego de 8 às 18. Enquadrado. Enjaulado. Moldado. Morto-vivo. Não quero isso! Às vezes temos que ser considerados loucos, rebeldes ou até mesmo irresponsáveis. São rótulos que acalmam os fast-friends. Deixe. Você nunca terá o controle sobre os rumores a seu respeito. Ria deles. Use a seu favor pra dar uns “xiliques” de vez em quando. Você já é doido mesmo, ninguém vai reparar.

Mas esteja preparado, pois terás, invariavelmente, uma reação social. Todos andam com uma tampa de panela que ao primeiro sinal de fumaça te abafarão, sufocando tudo e todos. Sufocar o que é diferente não é novidade. Toda mudança comportamental que se preze passou por isso, desde o Cristianismo aos Hippies o novo foi vítima de perseguição. É muito fácil rejeitar o desconhecido. Isso é válido apenas para os covardes, é claro. Portanto, não ouse se destacar numa sociedade competitiva como a nossa. Muito menos virar gay depois dos 30, isso é pecado mortal! Pensando bem, ouse, mas esteja preparado com seu kit anti-falso-amigos. Se convença que você pode ser o que quiser, ter o que quiser e fazer também o que desejar. O que é uma grande ilusão. A não ser que você se torne um hermitão! Mas se convença que isso é possível.Use sua inteligência, sem arrogância, pra saber que apesar de você não ser imbatível, vai ser atingido, e que vai doer. E que serão justamente esses ex-amigos que te machucarão mais, pois possuem mais munição contra você, as armas inimigas serão os seus segredos revelados nos tais momentos em que você jurava estar vivendo um instante sublime de pura amizade. E eu bem que avisei pra guardar sua felicidade pra você! Mas tem também os fast-friends do tipo que gostam de manter as aparências.Esses amigos fazem um drama do tipo: “-Ah! Você é assim, mas eu te aceito assim mesmo”. Ria, este é o recibo que prova sua superioridade. E por que isso? Porque as pessoas não fazem mais do que sua obrigação em aceitar o que você é. Não se justifique jamais, senão de nada adiantaria todo o seu sofrido processo de transformação. As pessoas que se julgam civilizadas, e que vivem em sociedade cobrando umas das outras e as condenando à simetria populacional, não passam de pessoas descerebradas e sem personalidade, verdadeiros cordeiros “nonsense”. Não dê ouvidos, não se abale, siga em frente. Ops! Outra cobra? Cuspa na cara dela e dê as costas. Menos uma no teu caminho.

Por Mau Couti
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A pergunta que me persegue: "Como você foi virar gay?"

Ok! Casei. Me formei. Morei fora. Abri firma. Construi uma família nos subúrbios da Califórnia. Vida dos sonhos? Talvez. Prisão? Conformismo? Adequação? Mais provável. Viver como se é esperado pode ser o único subterfúgio para aqueles que como eu são “diferentes”. Pode se tornar uma capa, um escudo, uma dupla personalidade. Mas, o que difere esse caso dos estudos clássicos é: Você controla as duas. Cria um botão de “switch”, que ao ser acionado condena uma à morte súbita temporária, para a seguir gerar a ressurreição da outra no próximo território ameno.

Foi assim que vivi por 22 anos, dos 8 aos 30. Começou quando percebí o quanto era “errado” sentir as coisas que meu corpo naturalmente berrava por atenção. Uma rejeição se apossou de mim e criou o tal botão. Eu matava o gay e inventava o hetero. Obviamente, o hetero nesses 22 anos teve uma longa e recorrente vida, enquanto o gay aparecia esporadicamente, sem deixar vestígios. Uma personalidade marginal, com sede de se entorpecer de vida, com tanta intensidade e verdade que me ejetava para longe do real. Me tornava um puto. Me fazia caminhar pelas ruas numa busca louca do desconhecido. Meu olhar era estritamente sexual. Bebia, ou melhor, me embriagava numa fúria secreta e interna, que sufocava o hetero social e libertava por um espaço nunca superior a 8 horas o gay sufocado transbordando de sexualidade. Eu ficava totalmente sem rumo, minha mira era péssima, eu tinha pressa, sede do que nunca havia bebido, nunca provado. Fome do proibido e por isso me enfiava sempre nas maiores roubadas. O pior antro da época era a Galeria Alasca. Pois era pra porta dela que eu ia. Eu, playboyzinho do Leblon, disfarçado de garoto de programa. Não tinha nome, mentia tudo. Não queria ver meu disfarce esfacelado nas mãos de um estranho. Quem eu era? Uma invenção. Um poço de desejo que precisava ser transbordado. E eu transbordava. Não tinha o menor pudor. Eu tinha o poder, eu decidia, transava com quem eu escolhesse. Obviamente nunca cobrei. Era tudo por prazer.

Mas esse prazer tinha seu preço. A culpa! O efeito do álcool não dura pra sempre. A realidade do dia seguinte se impõe como uma bomba. Explode no seu colo, voam estilhaços na cara dos teus pais, parentes, amigos. Como fingir, no dia seguinte, que nada havia acontecido e voltar a morar numa cobertura duplex da Delfim Moreira? Eu, o “Bom Partido”. O filho de um grande empresário do ramo de armamentos pesados militares, boa pinta, pegando as mais gatinhas da praia. Como entender esse desejo louco pelo mesmo sexo? Eu era um adolescente nos anos 80, e nessa época o legal era dar porrada em viado. Não tinha essa de ser politicamente correto, aliás, acho até que o politicamente correto da época era isso mesmo, sacanear, xingar, humilhar e bater em qualquer um do sexo masculino que demonstrasse qualquer tendência mais sensível ou afeminada. Existe um medo de gays que se manifesta nas mentes dos heteros que é difícil decifrar e ele se canaliza pela agressividade. Um medo que só pode ser de si mesmo, de seus próprios sentimentos. É tanto pavor de se enquadrar no perfil de um gay, de enxergar em si necessidades homoeróticas, que gera um desconforto tamanho em algumas mentes a ponto de se verem impelidas a destruir o que lhes é tão doloroso aceitar em si. Sendo que o correto seria se destruirem. Isso mesmo! Pegarem um pau e meterem na própria cabeça! Dêem com o carro no poste de raiva! Mas não destruam o outro por este lhe provocar um sentimento que, provavelmente, já existia dentro desse viado disfarçado de machão. É isso mesmo, quem bate em gay pra mim é viado (com toda a carga negativa que essa palavra carrega). Acho até que quem experimenta sexo anal não é necessariamente gay. Esses são até mais machos que qualquer porradeiro desses. Mas os que se incomodam a ponto de ter que agredir um gay só podem ser viados enrustidos. E falo isso porque, no auge da minha loucura de querer me enquadrar no mundão hetero, dei algumas vaciladas, eu era lutador de campeonato de Jiu-Jitsu, e também metia porrada em gays. A lógica dominante: “Dê porrada em gay e não tenha amigos gays, que você automaticamente é hetero”. Eu machucava o que doía em mim. Enganava-me, ao arremessar socos no meu reflexo. Os gays me injetavam de volta tudo que eu queria ser e não tinha coragem. Eu era um covarde!

Bom, acho que vocês já entenderam o que era ser gay nos anos 80. Pelo menos no Brasil. Portanto, fiquei dentro do armário mesmo. E não queria saber nem de dar uma espiadinha pra fora de vez em quando. Eu era esse viado enrustido! Não queria ser viado. Eu não era o que aparecia na TV, onde apenas caricaturas humanas eram expostas, também não era um Rock Star, sim, porque só assim era bacana ser gay. Eu era ninguém, era um jovem que queria tudo e nada ao mesmo tempo. Morria de medo de pegar AIDS. Não queria morrer por um desejo. Por mais forte que fosse, preferia a vida. Naquela época não se sabia direito como se pegava AIDS, logo, não quis arriscar. Tive uma longa conversa com meu pai, expus tudo, claro que omitindo umas coisinhas picantes demais. Falei apenas que havia experimentado e que não sabia o que queria, pois, nunca havia transado com uma mulher. Sempre na hora “H” eu desistia, ia embora, fugia. Depois de muito conversarmos achei que estava na hora de experimentar o sexo oposto. Experimentei várias vezes, mas isso não me fez hetero, analogamente chego à conclusão que: heteros não viram gays se forem pra cama com um. Muita gente me critica por essa afirmação, mas pense bem, fiquei casado 10 anos, transei com varias meninas, a minha primeira transa me fez chegar ao orgasmo 7 vezes, algo que nunca consegui repetir com um homem. Qual foi minha conclusão? Posso ser hetero se eu quiser. Doce ilusão essa. O fato foi que sufoquei o gay por toda minha convivência matrimonial. Não traí minha ex-mulher. Eu a amava. No fundo eu sabia que era gay, mas amava minha mulher. Ponto. Pra que me assumir? A pergunta certa seria, Por que? E a resposta é que não tive escolha. Quanto mais sufoquei esse desejo, mais forte ele ficou. Eu não podia nem ver um go-go boy dançando sem ter uma ereção tremenda. Quando me dei conta já era tarde demais. Apaixonei-me por um homem. Mas isso é uma outra história...

Por Mau Couti
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Papai é gay, meu filho...

Como falar essa frase? Como alguém pode explicar algo tão complexo como a sexualidade humana a uma criança de 8 anos?

Essas perguntas precisavam de uma resposta e eu era a pessoa certa para repondê-las. Eu, no auge da minha luta por dignidade e igualdade, cheio de sonhos de um mundo de igualdades... Quem melhor do que eu, aos 34 anos, para encenar essa situação, tão típica das novelas das oito? Eu tinha respostas para todas as questões gays do momento. Tudo era tão simples: eu era gay, já tinha me assumido para a família, para os amigos, para a sociedade, para o porteiro, para o cachorro, papagaio, as paredes, o vermelho... e a ansiedade começou a tomar conta de mim. Como contar para o meu filho? E se ele me odiar? E se ele virar viado por isso? E se...? Um milhão de hipóteses se estapeiam para ser a escolhida da vez. Mas eu não me abalo, afinal, eu enfrentei ex-mulher, pai , mãe, periquito, porteiro, a cor vermelha...

Era uma tarde diferente, era uma tarde planejada, preparada para o teatro. Havia barulhos inquietantes, sons de patadas no paralelepípedo. Estávamos em Petrópolis, havia um ar de realeza na cidade que de certa forma legitimava as conversas; um certo clima de arrogância real que nessas horas se faz imprescindível. Precisava ser forte, ter uma postura de pai. Olhei para os olhos azuis da minha cria e me senti em paz, sem culpa. Começo o diálogo:

-"Você acha que sua mãe pensa que eu sou gay?" pergunto tentando um link com o tão proibido assunto.

-"Acho que sim pai, ela veio me perguntar se eu achava." responde inocentemente meu filho.

-"E se o papai fosse gay? Teria problema?"

-"Não pai, claro que não."

Eu me encho de orgulho de ter gerado uma criança tão sem preconceitos, tão bem educada ao ponto de entender que as pessoas têm o direito de ser o que são, que não me contenho e como uma lança atiro a verdade em cima do garoto.

-"Pois o papai é gay."

silêncio...

Seus lindos olhos azuis que antes me acalmavam como um oceano, passam a me inquietar quando deles brotam lágrimas de pura emoção. Me apavoro, perco o controle da situação, derrapo na curva, forço o volante e pergunto:

-"Porque você ta chorando meu filho?"

Sem pestanejar ele diz:

-"Porque vão te sacanear papai."

Preciso comentar essa resposta dele: Existe algo mais puro do que isso? Nossas mentes podres de adulto jamais criariam a hipótese dele pensar em me defender. Ele era a criança. Quem precisa ser defendido é ele!!! Não, sua preocupação era legítima, pura, de uma criança que não foi ainda bombardeada pelos amigos, pela mídia e pela sociedade. Ele não teve tempo de ter o preconceito enraizado na sua alma. Não ficou chocado, não ficou decepcionado, nada! Ficou preocupado em me defender, em me poupar de virar chacota. Nunca tinha ouvido palavras tão lindas de uma criança. Me recuperei e perguntei:

- "Alguém me sacaneia agora?"

-"Não." respondeu ele.

-"Então... todo mundo sabe, menos você."

-"E porque você não me contou antes?"

-Porque já é antes. Você só tem 8 anos!

Bem, estou relatando uma das passagens mais intensas da minha vida. Desde então nunca ouvi uma palavra dele que não fosse para me dar força. Ele já está com 18 anos e continua sendo um amigo, filho e colega maravilhoso. Conto isso para acalmar pais que estão na mesma situação em que eu estive e dou um conselho: Conte durante a infância. Na adolescência o preconceito pode já ter corroído a pureza necessária para um filho entender isso de um pai. Boa sorte!

Por Mau Couti
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